História do Povo Cigano

A história das andanças do povo cigano



Segundo pesquisas....
Os ciganos chegaram à Europa em 1417. Da Pérsia (atual Irã), onde estavam desde o século XIII d.C., depois de saírem da Índia, eles se separaram em dois grupos. O primeiro dirigiu-se à Europa e o outro peregrinou no Oriente Médio e África do Norte.
 
Muitos historiadores asseguram que os ciganos são descendentes de gente pobre da casta chamada “Domba”, do norte da Índia. Vale lembrar que a sociedade indiana é dividida em castas entre os ricos e os pobres. Os membros da casta domba falam o prakiti, um dialeto hindu. A palavra “Ruppa” significa “prata” em prakiti; já em romani, língua da maioria dos ciganos, “Rup” tem a mesma tradução. Há uma vasta variedade de palavras e frases semelhantes nos dois idiomas acima citados, o que corroborou em boa parte para a conclusão que os ciganos são originários da Índia. Aliás, há muitas semelhanças na dança, canto e estatura física (cor olivácea, cabelos e olhos negros) entre os indianos hindus e aquele povo nômade.
 
Os domba, que mais tarde tornariam-se os ciganos, saíram do centro da Índia migrando para o noroeste do país. Isso aconteceu no Iº século antes de Cristo. As causas são desconhecidas. Por volta dos anos 300 d.C. , dirigiram-se à Pérsia, onde permaneceram até a invasão mongol no século XIII. Foi então que aquele povo dividiu-se em dois grupos. Um dirigiu-se para a Grécia, atravessando a Arménia. Com a invasão turca no século XIV, durante a qual o reino de Constantinopla acabou conquistado, os ciganos desse grupo adentraram a Europa, espalhando-se pela Hungria, Áustria, Boêmia (parte da atual República Tcheca), Alemanha (1417), França (1427/28), Suíça (1427/28), Bolonha (Itália) (1422) e Inglaterra (1500). Outro partiu para a Síria, vagando posteriormente pela Palestina e Egito. Sobre essas imigrações, a Enciclopédia Italiana (edição 1949) ressalta: “Probabilmente l’emigrazione ebbe luogo in varie date. Certo è che le croniche bizantine riportano che nell’835 gruppi di Zingari si trovano nella città di Anazarbos in Cilicia. Dal territorio bizantino fra il sec. X e il XIV gruppi de Zingari si diffusero da un lato verso l’Egito e l ‘Africa settentrionale, donde più tardi raggiunsero la Spagna; dall’altro verso l’ Europa. La loro presenza è segnalata sporadicamente in Grecia e nell’isola di Corfù prima del 1326" (página 956). ( Provavelmente a imigração ocorreu em várias datas. Certo é que os bizantinos relatam em suas crônicas que 835 ciganos encontravam-se na cidade de Anazarbos, na Silícia. Do território do império bizantino entre os século X e XIV, tribos ciganas difundiram-se por um lado em direção ao Egito e África do Norte, de onde mais tarde alcançaram a Espanha; por outro em direção à Europa. Sua presença é comentada esporadicamente na Grécia e na ilha de Corfù na primeira metade do ano de 1326).
 
Na Europa, depois de uma acolhida cordial em muitos lugares, os ciganos foram alvos de duras perseguições. Esses andarilhos roubavam e faziam trapaças por onde andavam. No entanto, apesar de sempre terem professado a religião do país por onde vagavam, as perseguições contra eles tinham caráter religioso. Na Europa Medieval, dominada de corpo e alma pela Igreja Católica, a lenda de que esses nômades negaram a hospedagem à Virgem Maria e ao menino Jesus quando passavam pelo Egito, foi o suficiente para gerar uma hostilidade constante dos católicos contra os ciganos, tal como os europeus nutriam contra os judeus apontados como os matadores de Jesus Cristo. Em função disso, os ciganos são conhecidos pelos falantes do inglês por “Gypsy”, uma palavra derivada de “Egyptian”( Egípcio). Os franceses também os chamam de “Egyptiens”; os espanhóis de “gitanos”, que também significa a mesma coisa. Os húngaros os chamam de “faraonemtség” (Raça do Faraó). Aliás, o tarot, o jogo de cartas originário do Egito, foi difundido na Europa pelos ciganos.
 
A palavra “cigano”, como é usada pelos falantes do português, originou-se da denominação grega a esses nômades- “athinganoi”, que significa “intocáveis”. Desconhece-se a razão deste nome que ao longo dos séculos transformou-se em “atsigan” e “tsigane”.
 
Os primeiros editos oficiais contra os ciganos apareceram no século XVII. Na Espanha, onde chegaram em 1447, eles foram proibidos de usar as roupas típicas, de praticar comércio, de portar armas de fogo, de falar suas línguas, além de serem obrigados a viver sedentariamente num bairro isolado. A repressão foi tão intensa que eles nem sequer tinham direito ao asilo nas igrejas, benefício este que era estendido até para criminosos comuns. Em 1663, no ducado italiano de Milão foi publicado um edito que proibia a entrada dos ciganos naquele território. Os ciganos que infligissem a lei eram presos por sete anos e as mulheres teriam uma das orelhas cortadas.
 
Medida quase similar foi adotada em 1768 pela rainha Maria Teresa, da Áustria. A permanência dos ciganos naquele país tornou-se ilegal caso os nômades recusassem-se a morar em casas, se negassem a abandonar a vida nômade e a usar roupas dos camponeses comuns e trabalhassem em ofícios definidos.
 
“Su profesión es la mentira”, referia-se aos ciganos o famoso escritor espanhol Cervantes, autor de “Don Quijote de la Mancha”, clássico da literatura espanhola. Já o grande mestre da literatura brasileira, Machado de Assis, utiliza o termo “cigana” para caracterizar sua personagem Capitú, protagonista do grande romance “Dom Casmurro”, a qual o escritor descreveu: “A cigana de olhos dissimulados”. Afinal, esses nômades eram atribuídos quaisquer artimanhas na arte de dissimular e tapear. Vem de longa a fama de ladrões e embusteiros atribuída a esse povo. Se houvesse crimes perto de seus acampamentos, os ciganos pagavam o pato sendo acusados de terem praticado toda sorte de atos ilícitos, com ou sem provas. Vejamos o que salientou uma importante enciclopédia espanhola. “Al principio de su aparición en las distintas partes de Europa la raz gitana fué respetada por creerles que eran de Egipto y que estaban obligados por Dios a hacer penitencia y vivir desterrados durante siete años por el pecado de sus antepasados, que no quisieron hospedar a la Virgen Maria con su hijo; los consideraban como peregrinos. Pero más tarde fueron acusados en todas partes de ladrones, incendiarios, envenenadores, de hacer mal de ojo, de tener pacto con el diablo y aun de antropófagos; si a esto se añade su aspecto sucio, su lenguaje desconocido y en fin, sus costumbres, instintos y modo de vivir poco favorable a la moralidad, no es de extrañar que esta raza fuese mirada con cierta repugnancia y que los legisladores de muchos países los clasificasen como vagabundos, los declarasen fuera de la ley y les prohibiesen el ejercicio de ciertos oficios””(*)
 

“No princípio de sua aparição em diferentes partes da Europa, os ciganos foram respeitados por se crer serem eles do Egito e que estavam obrigados por Deus a fazer penitência e viver sem rumo durante sete anos pelo pecado de seus antepassados , que não quiseram hospedar a Virgem Maria com seu filho; consideravam-nos com peregrinos. Porém, mais tarde, foram acusados em todas as partes de ladrões, incendiários, envenenadores, de mau olhado, de ter pacto com o diabo e ainda de antropófagos; se a esto se alude a seu aspecto sujo, sua língua desconhecida e enfim, seus costumes, instintos e modo de viver pouco favorável à moralidade, não é de extranhar que esta raça fosse vista com certa repugnância e que os legisladores de muitos países os classificassem como vagabundos, os declarassem fora da lei e proibissem-nos o exército de certos ofícios”.
 

Pergunto: se os ciganos estavam até o século XIII na Pérsia e de lá se dividiram em dois grupos, um dos quais dirigiu-se ao Egito, como é que haveria ciganos no país da pirâmides na época em que José, levando sua esposa Maria com o menino Jesus, refigiou-se no Egito escapando da perseguição de Herodes? Ora, a famosa passagem bíblica conhecida por “fuga do Egito” aconteceu 13 séculos antes da chegada dos ciganos ao Egito. Como os ciganos teriam negado hospedagem à Virgem Maria se eles nem estavam naquele país?
 
Em 1496, depois de longas décadas considerados persona non grata, os ciganos ganharam do rei da Hungria Vladislau II (1465-1516) o direito de livre trânsito naquele país sem serem hostilizados pelo exército. Em 1497, aqueles nômades foram expulsos da Alemanha. Em 1499, na Espanha foi aprovada a lei de expulsão dos mesmos. Poucos anos depois, em 1505, o rei da Escócia Jaime IV (1473-1513) outorgou a um cigano o título de conde do Egito e assinou cartas de recomendação para muitos outros desses nômades afim de que não fossem mais hostilizados. Em 1715, nove ciganos escoceses foram transportados para Virgínia. Foram os primeiros nômades desse povo a entrar nos Estados Unidos.
 
Os ciganos sofreram inúmeras perseguições. Em 1531 foram expulsos da Inglaterra, como também ocorreu com eles em 1538 na Morávia e em 1577 na Polônia. De 1701 a 1750, foram emitidos 68 decretos determinando a expulsão dos ciganos na Alemanha e Áustria. Em 1781, o imperador da Áustria, José II, filho da já citada rainha Maria Teresa, libertou os ciganos de algumas restrições. O arquiduque Francisco José, aquele que foi assassinado em 1914 em Sarajevo, episódio que repercutiu para o início da Iª Guerra Mundial, chegou até a receber ciganos em sua corte. Seu interesse por aqueles nômades chegou ao ponto de compliar uma gramática da língua cigana.
 
Em Portugal a Inquisição fez com que muitos ciganos, já fugidos da Espanha, buscassem refúgio no Brasil. O primeiro cigano chegou ao país em 1574. Na Romênia, foram escravizados e permaneceram nessa condição até o século XIX. Porém, a pena mais dura contra esse povo foi a decisão do imperador austríaco José I, que ordenou, em 1710, o enforcamento de todos os ciganos do sexo masculino encontrados no seu império. A ordem não foi cumprida, mas o povo nômade enfrentou o genocídio traçado por um outro austríaco, Adolf Hitler, o todo poderoso Führer que dominou a Alemanha de 1933 a 1945. Na 2ª Guerra Mundial, 500 mil ciganos, junto com seis milhões de judeus, sem falar de homossexuais, testemunhas de Jeová e presos políticos, morreram nos campos de concentração nazistas. Esse número equivale aproximadamente a um terço de sua população desses andarilhos que havia na Europa naquela época.
Após a guerra, com a fundação do Estado de Israel em 1948, entidades ciganas na Europa mobilizaram-se para reivindicar um país para eles, tal como os judeus conseguiram para si. Em 1933 a Liga das Nações já havia proposto a criação de um estado cigano numa ilha da Polinésia. Mas os ciganos estavam interessados na Índia. Na década de 50, houve vários encontros entre líderes ciganos e o primeiro ministro Jawaharlal Nehru para que lhes cedesse um pedaço de terra da Índia onde pudessem organizar uma pátria. Mas o projeto nunca foi adiante por causa da total falta de unidade política desse povo. Nem mesmo uma monarquia, fundada pelo polonês Gregory Kwick, que se proclamou “rei dos ciganos” em 1883, conseguiu unificá-los.
 
Kwick “governou” até 1930, quando abdicou do “trono” em favor de seu filho Michael II. Em 1909, no “reinado” de Gregory, que foi realizado o único recenseamento que se tem notícia sobre a população cigana. A pesquisa indicou que havia 600 mil ciganos na Europa no início do século XX.
 
O filho de Gregory, Michael II, governou de 1930 a 1937. Foi sucedido por Janusz I, que se proclamou administrador dos ciganos da Hungria, Espanha, Alemanha, Bulgária, Iugoslávia e Polônia. Janusz teve idéia de ir à Liga das Nações, com sede em Genebra, Suiça, com o objetivo de reivindicar oficialmente um território para ser sede de um país cigano. Uma assembléia de notáveis de seu povo o proibiu de ir a frente nesse projeto. Em 1938, Janusz I foi sucedido por Mateus Kwick, do qual não se teve mais notícias. Em 1939, estourou a Segunda Guerra Mundial, ocasião em que milhares de ciganos foram presos e mortos pelos nazistas.
 
A idéia de se criar um estado cigano já vinha do século XIX. Em 1879, foi realizado o primerio congresso mundial dos ciganos, na cidade de Kisztyal, na Hungria. Na pauta do encontro, o direitos das minorias. Esse mesmo tema foi discutido nos congressos de 1906, 1919 e no mais importante, de 1933, em Bucareste, capital da Romênia. Nesse último evento, um cidadão chamado Lazarescu foi nomeado “Presidente dos Ciganos”. Seu sucessor foi Niculescu, que se preocupou com a alfabetização dos ciganos. Foi editor de um jornal semanário em língua cigana intitulado “Galasul Romilor” (A Voz dos Ciganos). Aliás, trata-se de uma publicação inédita já que os ciganos, quase todos analfabetos, não escrevem seu idioma. Com exceção de publicações da antiga União Soviética e Iugoslávia, onde houve a publicação de jornais em idioma romani, existem apenas uns nove livros escritos em língua cigana.
 
Há muito pouco de publicações sobre a língua cigana. Afinal, esses nômades não gostam de ensinar seu idioma para os ‘gajôs’ (gente não cigana). Uma sociedade cigana chamada Lore, sediada na Inglaterra, mantem uma biblioteca com arquivos sobre tudo o que conseguem recolher de publicações sobre o povo cigano. No mesmo país, na biblioteca da Universidade de Liverpool, há um rico acervo de livros sobre a história e cultura do povo cigano.


ozias@jbfoco.com.br.
Postado há 4th January 2008 por Arquivos Jornalista Ozias Alves Jr
Marcadores: Ciganos história



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